Num país onde a cooperação universidade/ empresa para o desenvolvimento era muito precária, coube à Universidade do Minho lançar algumas iniciativas que se vieram a revelar fundamentais para uma mudança de paradigma nesta matéria.

A primeira foi o estágio obrigatório nas empresas, no último semestre dos cursos de engenharia que muito veio ajudar ao diálogo entre orientadores: um por parte da universidade e outro por parte da empresa e a fomentar a cooperação. O tema do estágio consistia na resolução de um problema da empresa utilizando o método científico.

Seguiram-se outras iniciativas, tais como a formação avançada e o ensino pós-graduado dirigido essencialmente, mas não só, a quadros das empresas, a disponibilização dos laboratórios e do conhecimento técnico e científico da universidade para ajudar as empresas a resolver os seus problemas no dia a dia (isto muito antes da criação dos centros tecnológicas) e a parceria universidade-empresa em projetos de I&D.

Não estando a universidade preparada para agilizar muitas destas iniciativas, houve que criar instituições de interface com esses objetivos e é assim que nasce a TecMinho: associação universidade-empresa para o desenvolvimento, no início da década de 90.

Desde então, a TecMinho tem evoluído muito positivamente e cumprido a sua missão com elevado desempenho. O sucesso alcançado pela TecMinho deve-se à enorme contribuição dada pelos colegas e amigos Professores Altamiro Machado e Jaime Ferreira da Silva, que, em muito, contribuíram para o seu sucesso, bem como à enorme dedicação, empenho e competência da sua equipa que no dia a dia são a alma desta unidade de interface de referência internacional da qual me orgulho de ter sido cofundador e 1º presidente.

Contudo, os tempos mudaram, as questões são outras e a reflexão torna-se necessária. A transferência de conhecimento da universidade para as empresas deve, a meu ver, ser orientada pelos grandes desafios que hoje se põe à sociedade em geral e às empresas em particular.

Temas como a Inteligência Artificial (IA), a Edição Genética e o Ambiente estão na ordem do dia e é nestas áreas que as empresas deverão apostar para ganhar vantagens competitivas e acrescentar valor aos seus produtos e serviços.

A Inteligência Artificial, sobretudo através das Redes Neuronais Artificiais, está a automatizar e substituir muito daquilo que hoje ainda se faz rotineiramente com a inteligência humana mesmo ao nível de pessoal altamente qualificado, como engenheiros, médicos, professores, etc. Está na base da personalização de tudo e na desmaterialização, desmonetização e democratização de produtos e serviços convencionais que hoje são substituídos por apps no telemóvel.

A Edição Genética, sobretudo através das técnicas CRISPR-Cas9, está a revolucionar áreas ligadas à biotecnologia, alimentação, saúde e bem-estar, entre outras, permitindo ao ser humano uma maior longevidade com melhor qualidade de vida, sobretudo no combate à senescência celular e ao cancro. Permitirá ainda uma alimentação mais saudável, agradável e sustentável sem recorrer à lamentável criação desumana e posterior matança de animais, contribuindo, assim, para que futuramente haja mais respeito pelos direitos dos animais.

O Ambiente. Que o clima é dinâmico e sempre esteve em mudança, parece não haver dúvidas. Se a presente aceleração é devida à atividade humana, parece haver. No entanto, há que preservar a qualidade do ambiente e isso implica mudanças para que o ar que se respira e a água que se bebe tenham cada vez melhor qualidade. É preciso lutar contra o lixo e prevenir contra incêndios florestais, parecendo não haver dúvida que muitos deles são mesmo provocados pelo homem.

Não obstante, há também perigos na utilização de muitas destas tecnologias emergentes que convém acautelar. Contudo a inovação, sobretudo a inovação radical, sempre foi controversa: o automóvel pode ser utilizado como tanque de guerra para matar, mas também como ambulância para salvar vidas e este é apenas um exemplo entre muitos outros que poderia citar para acalmar os céticos.

Estas questões não são novas para a Universidade do Minho, sendo que já na década de 80 do século passado se trabalhava em doutoramentos utilizando técnicas de IA, mesmo em departamentos não especializados nesta área científica. E este é apenas um exemplo entre muitos outros.

Perante tais desafios, urge não perder tempo e abrir caminho de forma a que as empresas sejam estimuladas a tomar partido dos novos paradigmas de desenvolvimento para criar mais riqueza, pois sem ela o nosso desenvolvimento continuará a depender dos crónicos subsídios da EU.

É momento de o país assumir, que de entre os seus principais objetivos para os próximos anos, o de passar de devedor líquido para contribuidor líquido do orçamento comunitário, venha a ser uma realidade da qual nos possamos orgulhar.

Para que isso aconteça, entre outras questões, deverá o governo assumir de forma visível, que as universidades e suas unidades de interface são motores essenciais para o desenvolvimento económico e social do país, devendo, por conseguinte, dotá-las do estatuto e dos meios necessários para as ajudar a desempenhar esse papel de uma forma cada vez mais eficaz.

Mário de Araújo

(Cofundador e 1º Presidente da TecMinho)

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